
Ser perfeitamente imperfeita nunca esteve tão na moda
Durante muito tempo, ignorámos as sábias palavras da P!nk sobre a constante busca pela perfeição: “Esforçamo-nos demasiado e é uma perda de tempo”. O paradigma está, contudo, a mudar, em particular na moda.
Somos constantemente seduzidos pela promessa da perfeição. Tanto, que não pensamos noutra ideia que não na possibilidade de a alcançar. Queremos o corpo perfeito, a casa perfeita, o trabalho perfeito, a relação perfeita. Tudo perfeito, independentemente do que isso queira realmente dizer. Mas este conceito não é mais do que “uma construção psicológica e cultural”, explica Helena Paixão, psicóloga clínica. E, no fundo, sabemo-lo.
Temos consciência de que, por mais que nos esforcemos, nunca atingiremos a perfeição. “É um destino impossível”, garante. Mas isso não nos impede de a procurar. “Para o ser humano, representa frequentemente uma promessa de aceitação, segurança e valor pessoal”, nota a especialista, acrescentando que “a procura da perfeição nasce sobretudo do medo: do de falhar, de sermos rejeitados ou de não sermos suficientes”. No fundo, “funciona como uma espécie de ilusão de controlo num mundo que é, por natureza, imprevisível”, completa. Foi talvez por isso que permitimos que o luxo silencioso ou a estética clean girl proliferassem. Traduziam um minimalismo polido e uma elegância irrepreensível que acreditávamos precisar nas nossas vidas numa altura em que o planeta se encontrava do avesso. Não que tenha melhorado, claro.
As notícias que ouvimos todos os dias na televisão evidenciam um declínio que parece não ter fim. No entanto, assiste-se a um “cansaço generalizado de imagens excessivamente polidas”, repara a profissional. “Durante décadas, fomos expostos a modelos de beleza, sucesso e felicidade extremamente idealizadas. A publicidade, a moda e, mais recentemente, as redes sociais contribuíram para a criação de padrões quase inalcançáveis. Hoje existe uma maior consciência sobre o impacto psicológico dessas imagens.
Falamos mais sobre saúde mental, diversidade, vulnerabilidade e autenticidade. Há uma espécie de fadiga coletiva em relação ao excesso da perfeição”, sublinha. Por esse motivo, com feeds minuciosamente curados, fotografias pensadas ao pormenor e vídeos que criam a ilusão da inexistência de qualquer tipo de falha, muitas pessoas deixam de se identificar com o que encontram no ecrã. “Quando vemos alguém excessivamente perfeito, podemos admirá-lo, mas nem sempre conseguimos sentir proximidade”, refere Helena Paixão.
Fugir da norma
Surgem, assim, cada vez mais exemplos contracorrente. Abandonam a uniformidade que as redes sociais ajudaram a moldar e procuram trazer autenticidade. “É uma resposta cultural à necessidade crescente de nos vermos representados de forma mais humana e mais próxima daquilo que realmente somos”, declara a psicóloga fundadora da Clínica Helena Paixão. É também uma forma de criar distanciamento das imagens aparentemente irrepreensíveis, criadas por inteligência artificial. Provar que há um humano e não uma máquina por trás, capaz de sair da norma e mostrar personalidade, de forma crua.
Vemo-lo quase como uma luta silenciosa contra o algoritmo. Por vezes, de forma óbvia, noutras, em pequenos detalhes que poderiam escapar aos olhares menos atentos: em assimetrias, numa alça propositadamente descaída, golas de camisas parcialmente desdobradas, tecidos amarrotados, cabelos fora do lugar ou uns lábios imprecisamente definidos. À primeira vista, soam como aparentes erros no styling ou mesmo como falta de tempo para limar arestas. Mas tudo é propositado para que o resultado se torne, imediatamente, mais real. Difícil de reproduzir por IA.
Descuido propositado
Há quem designe esta abordagem de Burnout Chic, Messy Girl ou Undone Glamour. Expressões que traduzem um piscar de olho à imperfeição, avistado nas coleções de primavera-verão 2026 com intensidade.
Na antecipada apresentação das propostas da Chanel, o icónico modelo 2.55 surge desestruturado, como se tivesse passado de mão em mão antes de chegar ao desfile. Exala vida, no seu ritmo frenético e caótico. Conta uma história, mesmo que a narrativa esteja a começar precisamente ali, na passerelle. O mesmo acontece na Fendi ou Loewe, com bolsas assumidamente abertas, como se saíssemos de casa à última hora, a correr porta fora, e não tivéssemos tempo de as fechar. Já em N21, o flirt com a imprecisão e os defeitos precisa de um quarto.
As alças de vestidos pendem, descontraídas, pelos braços, os colares perdem a sua rota habitual, sem GPS, seguindo, ora por dentro da camisola, ora por cima da gola, as malhas parecem atiradas para os ombros, sem espelho, e os tops raramente ficam totalmente presos nas saias. São um reflexo da realidade, pura e dura, se tivéssemos coragem de nos apresentar como somos: com falhas.
A favor da criatividade
“Mais do que uma tendência estética, esta escolha pode refletir uma mudança de paradigma como a valorização da singularidade, em vez de uniformidade”, menciona Helena Paixão. Além disso, trocar a exigência pela autenticidade traduz-se psicologicamente “numa maior flexibilidade mental e emocional”, afirma. “Passamos a aceitar o erro como parte da experiência humana e não como uma prova de incompetência. Há uma redução significativa da ansiedade associada ao desempenho e uma maior capacidade de desfrutar do processo, em vez de vivermos exclusivamente focados no resultado”, esclarece, adicionando que, “curiosamente, muitas pessoas descobrem que se tornam mais criativas, mais espontâneas e até mais produtivas quando deixam de estar constantemente preocupadas em fazer tudo de forma irrepreensível”.
Que o diga Rachel Scott, diretora criativa da Proenza Schouler. “O perfeccionismo parecia um pouco como uma prisão”, revelava ao Women’s Wear Daily antes do desfile. Foi por esse motivo que enviou pela passerelle modelos que vestiam fatos com um aspeto inacabado, com as linhas por cortar, peças assimétricas e tecidos que não tinham visto um ferro de engomar. Também os cabelos surgiam naturais, com mechas aparentemente fora do lugar e frizz, e a maquilhagem quis-se intencionalmente esborratada, quer na boca, quer nos olhos.
Ousar abandonar a perfeição
Helena Paixão defende, contudo, que tomar esta decisão de forma consciente não é fácil, em especial nos dias que correm. “Vivemos numa cultura em que a imagem é cuidadosamente construída e editada. Mostrar vulnerabilidade, limites ou imperfeições continua a exigir coragem”, argumenta. É, por isso, uma questão de atitude. Mas não apenas por isso.
Numa era em que somos incitados a comprar mais e mais e mais, a experimentar a última tendência e seguir um único caminho, sob o prejuízo de sentirmos FOMO (significa fear of missing out; em português medo de perder algo), mostrar que as peças que vestimos conseguem contar vários episódios da nossa vida, uma vez que nos acompanham ao longo do tempo, é punk. Com sinais de desgaste, linhas por aparar, engelhadas ou mesmo rasgadas, revelam a nossa história. E, não, não são sinal de preguiça ou descuido. Não é por acaso que dizem que as marcas num vestido ou camisa de linho lhe dão carácter.
Em repetição
Isto não é, porém, algo novo. Sob a filosofia japonesa do wabi-sabi, que celebra a beleza na sua forma imperfeita e natural, a valorização da beleza do incompleto ou da falha remonta ao século XV. Além disso, multiplicam-se os designers que usavam (e usam) a desconstrução como linguagem visual nas suas coleções, desafiando códigos tradicionais.
Martin Margiela ou Rei Kawakubo podem ser alguns dos seus maiores exemplos, mas muitos seguem as suas pisadas, de forma disruptiva, desafiando as regras da simetria, equilíbrio e acabamentos. O seu regresso é, todavia, relevante. “Num mundo onde durante muito tempo se procurou esconder tudo aquilo que fugia ao ideal, assumir traços considerados imperfeitos pode ser uma forma de afirmar que a beleza não reside na ausência de falhas, mas naquilo que nos torna únicos”, frisa a psicóloga. Contudo, a própria imperfeição corre o risco de, por ironia, também ela se tornar uma nova forma de perfeição. Quando coreografamos as falhas, perdemos a autenticidade e regressamos à constante busca pela (im)perfeição.