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A carreira, as viagens, os treinos, a natureza e o mar. Antes de Frederico Morais partir para a África do Sul, o surfista português classificado no 18.º lugar do Circuito Mundial de Surf esteve à conversa com a Saber Viver.

Não estaremos muito longe da verdade se dissermos que Frederico Morais cresceu dentro do mar. O pai, grande adepto de desporto, membro da selecção portuguesa de rugby durante mais de uma década, foi incansável: levava-o à praia, não perdia uma única competição, incentivava-o a conseguir sempre mais e melhor. Por esta altura, ainda muito novo, Kikas (como é mais conhecido) prometeu que um dia seria um grande surfista. O seu desejo era chegar longe. E assim foi. Hoje, é o maior nome do surf português e uma das grandes figuras no contexto mundial, ocupando o 18.º lugar no Circuito Mundial de Surf. Antes de partir para a África do Sul, o surfista natural de Cascais, esteve à conversa com a Saber Viver, na praia de Carcavelos, num encontro proporcionado pela marca de produtos para o tratamento e cuidado com a pele ISDIN.

Aos 25 anos, Kikas garante-nos que já concretizou o sonho da sua vida. Ou, pelo menos, o primeiro – agora, terá de traçar novos. Adora o País onde vive – não o trocava por nada – e o contacto com o mar incutiu-lhe alguns princípios que aplica na sua forma de viver: pensar no presente, aproveitar o momento e, acima de tudo, respeitar a natureza. Na sua primeira escola de surf The Blue Room – que foi inaugurada a 1 de julho, no Estoril – não quer formar campeões. Quer, antes, dar aos miúdos aquilo que o surf lhe deu a ele.

 
Está quase a chegar a data da inauguração da escola The Blue Room…
É verdade. Abri uma escola com dois dos meus melhores amigos, o José Celestino da Costa e João Murjal, onde vou tentar dar aos outros aquilo que o surf me deu a vida toda. Quero criar um sítio onde as pessoas possam aprender aquilo que pude aprender quando era miúdo: por-me de pé, conhecer o mar, divertir-me, conhecer pessoas e, claro, ganhar a paixão que eu ganhei ao surf.
Não é suposto ser só uma escola, mas também uma “casa”…
Quero que seja uma espécie de segunda casa. Quero que seja um sítio onde os miúdos possam estar à vontade, não só a fazer surf. Se os miúdos chegarem um bocado mais cedo, eles podem ficar lá a ver um filme. Se um pai se atrasar, pode ficar descansado porque o filho vai estar em segurança. Não tem de estar preocupado com nada. Quero dar essa possibilidade na minha escola para criar laços entre professores e alunos. Há mais comunicação, conexão. Os professores acabam por conhecer melhor os alunos, conhecer melhor os pais e acho que toda essa relação é importante.
Viaja muito. De todos os sítios onde já esteve, qual é que é imperdível?
O sítio que eu mais gosto, pessoalmente, é a Austrália. É o país onde eu mais gosto de estar, onde me sinto em casa e que acho que é o mais parecido com Portugal. As pessoas são muito acolhedoras, simpáticas, têm um ótimo estilo de vida, praticam muito desporto, acordam cedo e divertem-se na mesma. E, claro, que tem ótimas ondas. Também é um sítio onde se come bem, com restaurantes muito diversificados, mas muito na onda do estilo saudável. Nesse aspeto talvez esteja mais à frente do que Portugal. Mas pronto… não há nada como a comida portuguesa.
Não trocava Portugal por nada?
Sem dúvida! Não trocava Portugal por nada. O estilo de vida que podemos ter aqui é ótimo. Tudo é perto. Estamos perto da cidade, da praia, de sítios históricos. Temos tudo. Estamos a poucas horas de outras capitais europeias. É um sítio inacreditável. Lisboa e Porto são cidades lindíssimas. Acho mesmo que tudo é bom.
Qual é a mais valia do surf relativamente a outros desportos?
Eu acho que todos os desportos têm coisas boas. Todos transmitem e ensinam coisas boas. O surf ajuda-nos a respeitar muito a natureza, um aspeto fundamental, sobretudo nos dias de hoje… O surf ajuda-nos nesse aspeto porque o maior meio de contacto é com natureza. O surf é natureza: é estarmos dentro de água, à espera que as ondas venham. Não podemos mudar nada e isso ensina-nos a respeitá-la. Acho que são coisas fundamentais e acho que é um valor  importante para nós e até para as gerações que aí vêm – tentar preservar a natureza porque é a melhor coisa que temos
Além disso, o surf ajuda a lidar com os problemas do dia a dia. Dentro de água, por maior que seja o stress, esquecemos tudo e estamos focados no mar. Conseguimos verdadeiramente viver o momento. Vir dar um mergulho ajuda sempre muito, nem que seja para surfar só uma onda ou para estar meia hora dentro de água. É muito relaxante e desafiante – todas as ondas são diferentes e todos os dias o mar está diferente. Não encontramos nada igual.
Está no top 20 do Circuito Mundial de Surf. Isto não cria momentos de stress?
Atingi o meu maior sonho. Agora tive de criar novos. O que eu tento fazer na minha vida é o que eu tento fazer dentro de água: aproveitar o momento, não pensar naquilo que vai acontecer para a próxima semana, nem pensar naquilo que aconteceu na semana passada. Nós podemos ter planos para seis meses e chegar à altura e tudo estar tudo diferente. Nunca sabemos. O melhor é irmos vivendo, aproveitando sempre as coisas boas.
Pratica mais algum desporto?
Não tenho estado em Portugal, portanto é impossível fazer mais alguma coisa, além de surfar. Mas costumo praticar muito muay thai e boxe, mas numa vertente adaptada ao surf. Escolhi estes desportos como treino complementar porque acho que há muitos movimentos que se assemelham ao que fazemos dentro de água. Na forma como eu pratico, ainda é mais adaptado ao surf. Também adoro ténis, mas não tenho jogado para evitar as lesões.
Agora sobre a sua dieta… É regrado na forma como se alimenta?
Tento ter uma alimentação saudável e correta, mas não sou regrado nem de extremos. Não faço restrições, não tenho problemas com glúten ou lactose. Como de tudo. Gosto de comer os meus doces, de cometer as minhas asneiras e de comer aquilo que gosto. Mas de uma forma moderada, obviamente. Tento só fugir daquelas comidas de plástico.
Como é que gosta de passar o tempo livre?
Além de surfar, claro, adoro estar com os meus amigos e de estar com a minha família. Adoro um bom jantar com toda a gente divertir-se e a rir. Como durante o dia ou estou na praia ou no ginásio, tento sempre arranjar tempo durante a noite para estar com as pessoas de quem gosto.
Passa os dias dentro de água. Tem sempre vontade?
Tenho, tenho quase sempre vontade. Quando o mar está inacreditável tenho mesmo muita vontade. Hoje, por exemplo, a vontade não seria tanta porque não há quase ondas. Para treinar ou experimentar pranchas não seria muito aliciante. Mas a minha profissão é esta: surfar todos os dias, trabalhar todos os dias.
E é feliz assim…
Muito. Sou mais feliz do que algum dia pensei. Sem dúvida nenhuma.
 
Créditos: Salvador Colaço

 

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