Sociedade

O futuro é deles. Matilde Chambel: "O que quero fazer é resolver problemas para ajudar pessoas"

Queremos mostrar o que de melhor se faz em Portugal, por isso não podíamos deixar de falar dos mais jovens. Damos-lhe a conhecer Matilde Chambel, uma das cinco mentes brilhantes portuguesas.

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O futuro é deles. Matilde Chambel:
© D.R.
Rita Caetano
Escrito por
Jul. 25, 2020

Vêm de áreas diferentes – da literatura ao empreendedorismo, da ciência ao trabalho em ONG, sem esquecer a dança –, mas têm três coisas em comum: são jovens, fazem o que gostam e destacam-se no seu ofício, ou seja, o futuro é deles, sem sombra de dúvidas.

Matilde Chambel, Programs Manager numa ONG — 23 anos

Aos 14 anos, Matilde Chambel teve o primeiro contacto com o voluntariado, na Refood, e percebeu que o que queria fazer para o resto da vida era resolver problemas e ajudar os outros.

“Ainda me lembro de ter perguntado aos meus pais se conseguiria fazer carreira disto”, conta. A resposta foi um não, mas Matilde Chambel depressa descobriu que poderia trabalhar no âmbito social e humanitário. Faltava decidir a área e alturas houve em que acumulava dez voluntariados para perceber o que gostava, e foi durante essa procura que percebeu que queria trabalhar numa ONG (organização não governamental).

“Nunca fui tão feliz como naquele momento”, diz. Decidiu dedicar um ano ao voluntariado no final do ensino secundário, mas primeiro teve de convencer a família.

“Até um PowerPoint fiz para perceberem o quão importante era para mim ter aquela experiência. Chegámos ao compromisso de que se eu entrasse na faculdade e depois congelasse a matrícula, poderia ir”, diz. E assim o fez.

Passou um ano em Espanha e quando regressou a Lisboa iniciou o curso de Gestão, área escolhida porque acha que “um dos pontos fracos das ONG é a gestão de orçamentos”.

Em paralelo com a licenciatura, andou sempre no voluntariado – tendo sido uma das fundadoras do UNICEF Portugal Youth Group –, mesmo durante o ano de Erasmus na Turquia.

Estas pessoas estão aqui porque não tinham outra opção, ninguém escolhe viver o que estão a viver – Matilde Chambel, Programs Manager

Dura realidade

Hoje, é Programs Manager na Colletive Aid, uma ONG de apoio a refugiados e migrantes. Está desde agosto em Sarajevo, na Bósnia Herzegovina, a gerir a equipa e os projetos que têm com a ONU, Médicos Sem Fronteiras e Cruz Vermelha.

“O nosso papel é tapar os buracos que aquelas ONG não conseguem tapar”, afirma, acrescentando que as dificuldades são muitas: “O ambiente e as circunstâncias mudam a cada semana, tal como as necessidades. A Bósnia, talvez por ter vivido uma guerra não assim há tanto tempo e ter uma economia debilitada, não sabe lidar com os refugiados e migrantes, as regras e as leis mudam constantemente, o que complica o nosso trabalho”, revela, acrescentando que os campos na Bósnia são de passagem, logo ali só são asseguradas as necessidades básicas, mas os refugiados e migrantes acabam por ficar muito tempo.

A pandemia da Covid-19 só piorou as coisas. “Os campos foram fechados, os migrantes e refugiados que conseguiam arrendar um alojamento foram expulsos e num campo para 800 pessoas vivem agora duas mil”, descreve Matilde Chambel.

O campo onde a Colletive Aid atua é masculino e, neste momento, é a casa de refugiados e migrantes vindos, sobretudo, do Irão, Paquistão, Afeganistão, Iraque, Marrocos e Líbia, e todos têm uma história comum: “Estas pessoas estão aqui porque não tinham outra opção, ninguém escolhe viver o que estão a viver. Fogem de realidades horríveis e há muito sofrimento. É uma viagem eterna, porque não sabem para onde ir. Conheço pessoas que já tentaram passar a fronteira 20 vezes e não conseguem. São pessoas com backgrounds extraordinários, com capacidades e conhecimentos incríveis (professores, engenheiros, etc.) e o mais triste é que são tratadas como incompetentes”, realça.

Enquanto tiver energia e capacidade emocional, quero estar nesta parte mais humanitária – Matilde Chambel, Programs Manager

Próxima paragem: Grécia

E como este é um problema que está longe de ser resolvido, o próximo passo de Matilde Chambel é ir para a Grécia. “Quero perceber o início desta jornada e aprender mais sobre a resposta urgente às crises”, conta-nos.

Neste momento, voltar a Portugal não está nos seus planos. “Enquanto tiver energia e capacidade emocional, quero estar nesta parte mais humanitária”, adianta.

E por falar em capacidade emocional, como se lida com uma realidade tão dura como esta? “Não é fácil e é uma aprendizagem. Comecei por chorar muito, porque não estava à espera que fosse tão mau, agora cheguei a um equilíbrio. O trabalho fica no trabalho e tento fazer coisas de que gosto nos tempos livres sem me sentir mal com isso. Eu e todas as pessoas que trabalham e fazem voluntariado nesta área não se podem esquecer do autocuidado”, remata.

Os favoritos de Matilde Chambel

Ídolo: “A minha avó, desde sempre e para sempre, porque viveu para os outros a vida inteira e, numa altura em que as mulheres não tinham muitos direitos, ela puxou os limites em tudo que conseguia.”

Hobbies: “Sou viciada em vídeos de exercício físico, faço todos os dias de manhã, e ler antes de dormir.”

Livro: “Tenho vários, mas o meu preferido é O Retrato de Dorian Gray, que é um daqueles de que retiro mensagens diferentes sempre que o releio.” ‣

Sonho: “É a minha utopia máxima, adorava que todas as ONG colaborassem entre si, porque o que eu mais vejo é competição em vez de cooperação e, se todas cooperassem, seriam mais fortes”.

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 240, junho de 2020.

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