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Pansexualidade: Quando a atração sexual vai além do género

Ainda há algum preconceito para as pessoas que gostam mais do que um género. A pansexualidade não se limita só a homens e mulheres. A atração física vai além disso.

O prefixo ‘pan’ pode induzir em erro quem ouvir falar no conceito de pansexualidade pela primeira vez. Indicativo de generalidade, totalidade, universalidade, não deve, porém, ser confundido com ausência de valores morais nem com falta de seletividade. “não envolve sexo com qualquer ser vivo que não seja humano, adulto e que tenha dado o seu consentimento”, esclarece Raquel Freire, cineasta e ativista LGBT, membro das Panteras rosa.

Foi em 2007 que a realizadora portuguesa descobriu que existia um termo para a sua expressão da sexualidade: “Convidaram-me para dar um workshop de comunicação a ativistas da comunidade LGBT, em Marselha, em França. Quando cheguei, tinha de preencher um formulário e declarar a minha orientação sexual. Só que não consegui pôr-me em nenhuma caixa, por isso assinalei a que dizia ‘outras’”. Podia ter-se afirmado bissexual, mas, para Raquel Freire, é indiferente que a pessoa por quem se apaixona tenha nascido com um pénis ou uma vagina, que seja do género masculino ou feminino, transgénero ou intersexual. “Eu gosto de pessoas. Já partilhei a minha vida com pessoas do género masculino, do género feminino e transgénero”, diz.

A pansexualidade ultrapassa o género

A visita ao país onde se deu a revolução sexual de 1968 acabou por se revelar frutuosa. Além de fazer Raquel Freire refletir sobre um possível conceito que resumisse a abrangência da sua orientação sexual – “tinha de ter um nome e provavelmente teria o prefixo ‘pan’” –, a cineasta percebeu que não era um caso único. “Um amigo que é transgénero falou-me na filósofa espanhola Beatriz Preciado [homem transsexual que passou a assinar como Paul B. Preciado], que tinha publicado o manifesto Contrassexual (2004). O livro dizia muitas coisas com as quais me identificava (e identifico).

E pensei: ’não estou maluca, há mais pessoas como eu’”, recorda. Para alguém que se identifica como pansexual, o que interessa são os valores, as ideias, os sonhos, a história, a personalidade e o estilo de vida do parceiro com quem escolhem ter um relacionamento sexual e/ou amoroso. O género é secundário. Na opinião da cineasta, essa característica revela muito pouco acerca da pessoa, porque “é uma construção social, política e cultural”. A experiência pessoal de Raquel Freire mostra como, aliás, pode limitar e complicar muito a vida de um indivíduo.

“No Festival Internacional de Cinema de Veneza, os seguranças não me deixaram entrar na minha projeção porque acharam que eu era um homem. Tinha 26 anos. Ser discriminada pelo meu género chocou-me muito, porque tive uma educação feminista. O meu pai e o meu avô sempre me disseram que eu podia ser o que quisesse e que não me deveria deixar inferiorizar por ser mulher”, conta. Ironicamente, a longa-metragem que ia apresentar tinha como tema central o abuso de poder. O filme intitula-se Rasganço (2001) e tece uma crítica às praxes académicas.

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Caminho da aceitação

Numa entrevista no programa Bairro Alto da RTP2, apresentado por José Fialho Gouveia, Raquel Freire declarou-se publicamente pansexual e as reações dividiram-se.

“Logo a seguir, fui dar aulas, estava a lecionar na escola Superior de música e Artes do espetáculo do Porto, e, quando cheguei lá, os meus alunos começaram a olhar para mim de forma diferente. enviaram-me e-mails, a maioria de apoio. As poucas mensagens de ódio que recebi foi através do Facebook e eram de grupos neonazis e de skinheads.”

O mais difícil foi perceber que a revelação tinha, inadvertidamente, afetado a vida da sua mãe: “Sofreu mais que eu. Reside no Porto, que é um meio mais pequeno e conservador [Raquel Freire vive em Lisboa]. Um dia, ao jantar, disse-me que já lhe tinham perguntado se eu fazia sexo com cães e com árvores.” Comentários como estes serão maldosos ou desinformados?

Nós gostamos de arrumar as coisas em sacos diferentes, mas as pessoas não têm de caber dentro das categorias restritivas que a sociedade predetermina – Maria Joana Almeida, psisóloga

Cultura e mentalidade

Ainda acontecem muitas situações de discriminação, não pode ser negado. Uma pessoa sair da maioria e assumir-se como parte de uma minoria, seja qual ela for, pode trazer dificuldades”, confirma a psicóloga clínica e terapeuta sexual Maria Joana Almeida. Uma coisa é certa: o ambiente urbano, onde há maior diversidade de pessoas e comunidades, estímulos diferentes, está associado a uma maior abertura de espírito.

“Alguém que viva em Lisboa tem acesso a mais fontes de informação, como o Festival Internacional de Cinema Queer, do que em Portalegre. Coisas simples fazem a diferença”, nota a especialista. Paradoxalmente, nunca houve tanta liberdade como hoje em dia para as pessoas se autoidentificarem com um género (mais do que masculino ou feminino) e orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual, assexual).

Nós gostamos de arrumar as coisas em sacos diferentes, mas as pessoas não têm de caber dentro das categorias restritivas que a sociedade predetermina. Há muita variabilidade interna”, alerta Maria Joana Almeida. A pansexualidade pressupõe a possibilidade de vivenciar a diversidade de expressões sexuais entre seres humanos adultos que dão o seu consentimento.

4 perguntas a uma especialista

A propósito da pansexualidade, falámos com  a socióloga Maria João Cunha, cofundadora do Centro Interdisciplinar de estudos de Género (CIeG) e coautora do projeto representações mediáticas de Género e Públicos Sensíveis.

O que é que o vosso observatório dos média revelou?

Todos os anos recolhemos as notícias que focam minorias. Temos detetado que, quando é noticiado  algo relativo a um  grupo sensível (como  o casamento homossexual e a questão da coadoção), os média têm um papel positivo, construtivo. O problema é que estas notícias surgem pouco, são demasiado curtas para terem um papel educativo e estão fora dos espaços nobres  dos jornais.

“Há pouco trabalho feito sobre grupos sensíveis. Portanto, nem toda  a gente está informada sobre questões como a pansexualidade” – Maria João Cunha, socióloga

Isso verifica-se apenas nos meios de comunicação portugueses?

Não só. nos estados Unidos da América e noutros países, também é raro os média noticiarem algo sobre  as minorias. Há pouco trabalho feito sobre grupos sensíveis. Portanto, nem toda a gente está informada sobre questões como a pansexualidade. A sociedade em geral não sabe o que é, como ela se expressa. Parece-me que a palavra pansexualidade ainda não entrou no léxico comum dos média. está tudo muito confuso. mas não é numa notícia de 300 palavras, pouco mais de dois parágrafos, que se consegue explicar alguma coisa.

O conservadorismo está a ditar o rumo noticioso?

Portugal é um país que, até há relativamente pouco tempo, esteve preso a uma mentalidade conservadora e tradicionalista. Temos estado a dar saltos, às vezes, muito grandes  – em termos legislativos, estamos muito à frente em relação a outros países –, mas a mentalidade nem sempre acompanha da mesma forma.

Os jornalistas são pessoas que têm uma determinada origem social. É importante sensibilizar os jornalistas para os temas da sexualidade, que têm uma carga emotiva e continuam  a evocar muitos tabus. nas universidades, eles também são pouco tratados. Se a pessoa não tiver uma formação para o efeito, há sempre dificuldade  na abordagem. Tem de se explicar que a sexualidade não remete apenas para ato sexual, é muito mais  do que isso.

Como é que definiria o conceito de pansexualidade?

Uma orientação sexual aberta, sem construções nem definições vinculativas – hoje a expressão da sexualidade é assim, mas daqui por um tempo pode mudar.


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