
Será o amor romântico incondicional?
Estaremos a confundir amor com dependência emocional ou medo de perder o outro? No Dia dos Namorados, Helena Paixão, psicóloga clínica, reflete sobre o amor incondicional romântico e o que torna uma relação saudável.
Crescemos rodeados de histórias que nos ensinaram que o amor verdadeiro tudo suporta, tudo perdoa e tudo aguenta. Filmes, músicas e narrativas culturais repetem a ideia de que, quando o amor é “a sério”, é incondicional.
Mas será mesmo assim? Ou estaremos a confundir amor com resistência, apego ou medo de perder? Do ponto de vista psicológico, esta é uma questão central porque a forma como entendemos o amor influencia diretamente a forma como nos relacionamos, colocamos limites e cuidamos de nós.
O que significa, afinal, amor incondicional?
O conceito de amor incondicional está, sobretudo, associado às relações parentais, sobretudo na relação cuidador–criança. É um amor que não depende do comportamento do outro para existir. A criança pode errar, testar limites, falhar e continua a ser amada.
Nas relações românticas, a lógica é diferente.
O amor entre adultos pressupõe reciprocidade, escolha consciente e responsabilidade emocional. Não é apenas um vínculo afetivo, é uma relação entre duas identidades autónomas. Por isso, falar de amor romântico incondicional pode ser não só irrealista, como potencialmente perigoso.
Quando o “amor sem condições” se transforma em autoabandono
Muitas pessoas permanecem em relações que lhes causam sofrimento acreditando que amar é aguentar. Aguentar a indiferença, a falta de cuidado, a desvalorização emocional ou até comportamentos abusivos. Nestes casos, o amor deixa de ser um espaço de crescimento e passa a ser um lugar de sobrevivência e toxicidade.
Do ponto de vista psicológico, isto acontece muitas vezes quando o medo de perder é maior do que o medo de se perder a si próprio, a autoestima está fragilizada, existe um padrão de vinculação inseguro ou quando se confunde intensidade emocional com amor.
Amar sem condições, nestes contextos, não é um amor saudável, é muitas vezes uma tentativa de garantir vínculo a qualquer custo.
Amor saudável implica condições?
As “condições” num amor adulto não são exigências rígidas ou jogos de poder. São limites emocionais básicos como respeito, segurança, cuidado, responsabilidade afetiva e coerência entre palavras e ações.
Quando dizemos “Eu amo-te, mas não aceito ser desrespeitada.” ou “Eu escolho estar contigo, mas não à custa da minha saúde emocional.”, não estamos a amar menos. Estamos a amar de forma mais consciente.
O amor saudável não elimina conflitos, mas cria espaço para reparação. Não exige perfeição, mas exige compromisso emocional.
A diferença entre amar e precisar
Um dos grandes desafios nas relações românticas é distinguir amor de necessidade emocional. Quando precisamos do outro para nos sentirmos inteiros, validados ou seguros, tendemos a aceitar mais do que devíamos. O amor maduro nasce da escolha, não da carência. Não significa que não precisemos de vínculo. Todos precisamos. Significa que o outro não pode ser a única fonte de valor pessoal, segurança ou identidade.
Quando o amor é vivido como dependência, qualquer ameaça à relação ativa ansiedade, controlo ou submissão. Quando é vivido como escolha, permite liberdade e crescimento mútuo.
Amar não é perder-se
Do ponto de vista terapêutico, uma das frases mais comuns em contexto de consulta é: “Eu já não sei quem sou fora desta relação.”
Quando o amor exige que nos anulemos, silenciemos emoções ou ignoremos limites internos, deixa de ser amor e passa a ser um padrão relacional desadaptativo. Amar alguém não implica abdicar de si. Pelo contrário, relações saudáveis fortalecem a identidade, não a diminuem.
O amor romântico saudável é um amor com presença, escolha e responsabilidade emocional. É um amor que aceita imperfeições, mas não normaliza o sofrimento. Que compreende falhas, mas não ignora padrões destrutivos.
É um amor que diz: “Escolho-te, enquanto esta relação for um lugar seguro para ambos.” E isso não o torna frágil. Torna-o adulto.
Amar bem também se aprende
Muitos de nós não aprendemos a amar de forma segura. Aprendemos a adaptar-nos, a agradar, a ficar, a insistir. Questionar a ideia de amor incondicional nas relações amorosas é um passo importante para relações mais saudáveis com os outros e connosco próprios. Amar não é resistir a tudo. Amar é escolher cuidar e continuar quando o amor é fonte de respeito, admiração, intimidade e crescimento mútuo. E, talvez, isso seja a forma mais profunda de amor que existe.